Cisjordânia cria plantas em cápsulas de gás lançadas por Israel

Tivesse Carlos Drummond de Andrade nascido no vilarejo de Bilin, na Cisjordânia, talvez o seu poema “A Flor e a Náusea” variasse. Em vez de “uma flor nasceu na rua!”, o autor escreveria algo como:

“Uma flor nasceu na granada! / Passem de longe, blindados, tanques, rio de aço do tráfego / Uma flor ainda desbotada / rompe o gás lacrimogêneo / É feia. Mas é flor. Furou o cartucho, o tédio, o nojo e o ódio.”

Moradores dessa vila palestina plantaram um jardim em cápsulas vazias de gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral. São os espólios de anos de conflito com as forças de segurança israelenses.granada

“Queremos usar o sofrimento para criar beleza”, diz à Folha Abdullah Abu Rahma, coordenador do Comitê de Resistência Popular de Bilin. Ele é um dos líderes das manifestações que, há anos, se opõem à construção do muro que separa a Cisjordânia do território israelense.

Bilin, com cerca de 1.800 habitantes, é um dos símbolos dos embates entre palestinos e as Forças de Defesa de Israel. A situação desse vilarejo foi registrada, por exemplo, no filme “5 Câmeras Quebradas” (2011).

O jardim foi plantado no local em que um dos moradores, apelidado “Fil” (“elefante”, em árabe), foi morto ao ser atingido no peito por um projétil de gás lacrimogêneo. A cena está registrada no filme –e na memória dos moradores desse vilarejo.

“Ele é o mártir”, diz à reportagem o jovem Eid Khatib, deitado no capô de seu carro, diante do jardim. Ele está sem gasolina, e passa a tarde ali olhando as flores.

No outono seco e ensolarado, as plantas estão murchas. O solo racha. Há uma obra em curso para trazer água até o jardim, a dez minutos a pé do centro da vila.

São cerca de 300 flores, mas o Comitê de Resistência Popular planeja fazer crescerem milhares delas. Abu Rahma diz ter 30 barris repletos de granadas vazias, em sua casa, razão pela qual ele foi detido pelas autoridades em mais de uma ocasião.

MURO

O comitê de Bilin foi criado em 2004 e, um ano depois, deu início a protestos no vilarejo. À época, eles se opunham à construção de um muro separando moradores de suas plantações.
A questão arrastou-se por anos, em uma disputa legal com as autoridades israelenses. Ativistas internacionais visitaram a vila frequentemente.

Apesar de a barreira ter sido de fato movida para outra localização, após as manifestações, Abu Rahma ainda organiza eventos semanais.

Um dos atuais pontos de atrito é a ampliação de um assentamento israelense vizinho, construído em terras que palestinos dizem pertencer a Bilin.

“Hoje, fazemos ações para fechar as estradas israelenses que não podemos usar”, afirma. “Atacamos as lojas de colonos na Cisjordânia.”

Há 13 membros no comitê, mas apenas sete deles são ativos, de acordo com o coordenador. O grupo, ele afirma, teve o apoio de diversos sindicatos brasileiros.

O vilarejo tem uma relação incomum com o Brasil, em parte pelo fato de a mulher de Emad Burnat, diretor de “5 Câmeras Quebradas”, ser brasileira.

Quando a reportagem visitou a vila, encontrou uma nota de R$ 1 enfeitando um mercadinho, na parede.

Além do jardim, o movimento construiu um parquinho na região. “Depois que removemos o muro, começamos a pensar em outros projetos”, diz. “Nós queremos fazer alguma coisa além de manifestações. Vamos manter a terra cuidando dela.”

“É uma mensagem para a ocupação”, afirma Abu Rahma, referindo-se à presença israelense na Cisjordânia. “Eles atiram para matar, mas nós usamos a beleza. Amamos a vida.”

Publicado em Folha de São Paulo.

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