Amazônia perdeu mais de 2000 árvores por minuto

Um relatório lançado em São Paulo sintetiza, pela primeira vez, cerca de duzentos dos principais estudos e artigos científicos sobre o papel da floresta amazônica no sistema climático, na regulação das chuvas e na exportação de serviços ambientais para áreas produtivas, vizinhas e distantes da Amazônia. A avaliação conclui que reduzir a zero o desmatamento já não basta para garantir as funções climáticas do bioma.iStock_000019636109_Small blogue

Conduzido pelo pesquisador Antonio Donato Nobre, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, a pedido da Articulación Regional Amazónica (ARA), o estudo “O Futuro Climático da Amazônia” afirma que é preciso recuperar o que foi destruído – somente no Brasil alcança uma área de 763 mil Km2, o que equivale a três estados de São Paulo ou a 184 milhões de campos de futebol.

Entre os segredos que fazem da Amazônia um sistema único no planeta, está o fato de que a floresta mantém úmido o ar em movimento, o que leva chuvas para as regiões interiores do continente. Além disso, ela ajuda a formar chuvas em ar limpo, uma vez que as árvores emitem aromas a partir dos quais se formam sementes de condensação do vapor d’água, cuja eficiência na nucleação de nuvens resulta em chuvas fartas.

Outro segredo trazido à tona é que a floresta amazônica não mantém o ar úmido apenas para si mesma. Ela exporta essa umidade por meio de rios aéreos de vapor, os chamados “rios voadores,” que irrigam áreas como o Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil e outras áreas como o Pantanal e o Chaco, além da Bolívia, Paraguai e Argentina. “Sem os serviços da floresta, essas produtivas regiões poderiam ter um clima inóspito, quase desértico”, diz o autor.

Gêisers de madeira – Segundo Nobre, essa competência de regular o clima se dá principalmente pela capacidade inata das árvores de transferir grandes volumes de água do solo para a atmosfera através da transpiração. São 20 bilhões de toneladas de água transpiradas ao dia, o equivalente a 20 trilhões de litros. Para se ter uma ideia, o volume despejado no oceano Atlântico pelo rio Amazonas é de pouco mais de 17 bilhões de toneladas diariamente. “As árvores funcionam como gêisers de madeira, jorrando esse imenso volume de água vaporosa na atmosfera”.

Mas o desmatamento pode colocar todos esses atributos da floresta em risco. Diversas previsões vem sendo confirmadas por observações, entre elas estão a redução drástica da transpiração, a modificação na dinâmica de nuvens e chuvas e o prolongamento da estação seca nas zonas desmatadas.

Vários estudos sugerem que a floresta, na sua condição original, tem grande resistência a cataclismos climáticos. Mas quando é abatida ou debilitada por motosserras, tratores e fogo sua imunidade é quebrada. Nos cálculos de Nobre, a ocupação da Amazônia já destruiu no mínimo 42 bilhões de árvores, ou seja, mais de 2000 árvores por minuto – ininterruptamente -, nos últimos 40 anos. O dano de tal devastação já se faz sentir no clima próximo e distante da Amazônia, e os prognósticos indicam agravamento do quadro se o desmatamento continuar e a floresta não for restaurada.

Entre as medidas mitigadoras, o estudo propõe “universalizar o acesso às descobertas científicas que podem reduzir a pressão da principal causa do desmatamento: a ignorância”. E é preciso agir, recomenda o documento, que fala em um “esforço de guerra” para reverter o quadro atual.

Para Sérgio Guimarães, coordenador da ARA Regional, O Futuro Climático da Amazônia é uma grande contribuição nesse sentido. “Nossa intenção ao promover essa publicação é justamente tornar esse conhecimento acessível a diversos setores da sociedade. Quando todos entenderem a importância das florestas para nossa economia e nossa vida, com certeza estará isso estará no centro dos nossos debates e das nossas políticas públicas”, diz Guimarães.

Desmatamento

Estendendo-se por 6.9 milhões de km2 em nove países – Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Suriname, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa -, a Amazônia é uma das regiões naturais mais importantes do planeta e representa 40% das florestas tropicais remanescentes do mundo.

Para Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da Rede WWF, combater o desmatamento na região já não é uma tarefa exclusiva das políticas nacionais, devido à crescente integração entre os países e as dinâmicas de mercado.

“Há frentes de desmatamento transfronteiriças, como por exemplo, entre o noroeste de Rondônia e o Nordeste da Bolívia, ou entre a tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia e a fronteira entre Equador e Colômbia, que são impulsionadas por ações descoordenadas entre os países. Além disso, a Amazônia tem complexo sistema de interação entre suas partes, sendo interdependente, pois o que se faz em uma parte prejudica outras. Sendo assim, é necessário ter políticas integradas e uma ação articulada que busque valorizar a floresta em pé em todo o bioma”, afirma.

Veja o estudo completo aqui.
Publicado em Ciclo Vivo.

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