Coquetel de bactérias para salvar corais de derramamento de petróleo

Um coquetel “personalizado” de bactérias é capaz de salvar corais afetados por derramamentos de petróleo no mar, indicam experimentos feitos por um grupo de cientistas brasileiros. São utilizados probióticos -ou seja, mais ou menos como a gente toma Yakult para melhorar a flora intestinal.

A mesma estratégia, segundo os pesquisadores, poderia ainda ser aplicada para minimizar outros tipos de desastre ambiental, como a lama que sufocou o rio Doce e chegou ao litoral brasileiro neste ano.

A ideia foi testada pelos pesquisadores com exemplares de Mussismilia harttii, ou coral-cérebro, que foram imersos em água misturada a petróleo. Enquanto alguns dos corais só foram atingidos pelo derramamento simulado, outros receberam também um “consórcio bacteriano”, com dez espécies de micro-organismos que tinham sido isoladas em colônias naturais do M. harttii que existem em Porto Seguro (BA).

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A pesquisa, publicada na revista especializada “Scientific Reports” e coordenada por Raquel Silva Peixoto, da UFRJ e da Rede de Pesquisas Coral Vivo, tomou como ponto de partida a teia complicadíssima de parcerias biológicas que os corais costumam construir com outros organismos marinhos.

Esses invertebrados construtores de recifes abrigam, por exemplo, criaturas de uma só célula que fazem fotossíntese (como as plantas terrestres) e compartilham os nutrientes fabricados por esse processo com os corais. Outros micro-organismos, como bactérias e fungos, também parecem se associar aos corais, com benefícios para ambas as partes.

Tais fenômenos, aliás, não são muito diferentes do que se vê no caso da flora intestinal humana, que abriga uma grande variedade de micróbios benfazejos (responsáveis por nos ajudar a absorver certos nutrientes da comida, por exemplo). É por isso que existem no mercado certas bebidas probióticas cujo objetivo é fortalecer a flora intestinal. Algo desse tipo não poderia ajudar os corais a eliminar da água as substâncias presentes no petróleo?

ABSORÇÃO RÁPIDA

Foi exatamente isso o que Peixoto e seus colegas verificaram ao analisar o que acontecia nos tanques contaminados nos quais também havia sido despejado o consórcio bacteriano probiótico, como decidiram designá-lo.

Após dez dias de contaminação com petróleo, os tanques com as bactérias haviam removido 73% dos hidrocarbonetos (um dos componentes do petróleo), contra uma remoção de apenas 27% nos tanques sem o time de bactérias “do bem”.

Além disso, os pesquisadores usaram métodos para avaliar como ficou a fotossíntese conduzida pelos organismos parceiros dos corais após a contaminação com petróleo. Sem as bactérias, esse processo caiu 95%; com elas, houve uma queda de 57% no mesmo prazo de dez dias.

“A ideia pode ser extrapolada facilmente para qualquer tipo de contaminante e em qualquer ambiente”, disse Raquel à Folha. O importante, diz ela, é levar em conta as condições específicas da espécie, do ambiente e do contaminante.

“O que vemos é que não há como desenvolver um produto com uma fórmula mágica que sirva para todo e qualquer local ou contaminante. Temos de tratar o meio ambiente como um paciente, e nós somos os médicos. Pode parecer complicado, mas essa estratégia é sustentável, eficiente e mais barata”, afirma Raquel.

No caso dos derramamentos de petróleo, a estratégia pode ser especialmente útil porque os produtos usados hoje tendem a afetar ainda mais a saúde dos corais, embora consigam degradar o petróleo.

A equipe agora pretende estudar de forma mais detalhada como exatamente as bactérias estão ajudando os corais a enfrentar a ação dos poluentes. Além disso, os pesquisadores estão tentando se antecipar a possíveis desastres, mapeando de antemão os micro-organismos presentes em certos recifes de coral.

“Estamos fazendo isso em alguns projetos de forma preventiva, ou seja, mapeando locais em busca desses consórcios para que fiquem prontos em caso de desastres nesses locais”, conta a pesquisadora.

Publicado em Folha de SP.

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