Sustentabilidade e arquitetura

A crise do petróleo na década de 1970 foi marcante para o movimento ambientalista. A possibilidade da falta de combustível e a crescente conscientização com os problemas ambientais ajudaram a formar uma reflexão sobre o modelo de crescimento da sociedade ocidental. Entre os temas que ganharam visibilidade, muitos deles resgatados da sabedoria tradicional, estava o da bioconstrução.

O método de bioconstrução reintroduz o conceito de vida natural à habitação ao conciliar as necessidades das pessoas com o respeito e a integração ao meio ambiente. Ela vai além da visão moderna, mas limitada, de construção sustentável que, basicamente, se preocupa apenas com o aproveitamento e reciclagem dos recursos, muitas vezes, com novas tecnologias. Uma moradia feita nos conceitos da bioconstrução deve respeitar quatro princípios:

Utilização de materiais locais – Emprego de matérias-primas locais ou regionais como, terra, bambu, palha, pedra entre outras. Isso reduz o impacto ambiental do transporte.

Construção conforme o clima local – Consideração dos fatores climáticos para uma construção resistente e que favoreça o bem-estar de seus ocupantes.

Respeito às tradições – Aproveitamento da sabedoria tradicional e herança cultural de povos e comunidades. A utilização de técnicas construtivas mais simples com materiais naturais não é uma questão de falta de recursos de populações mais pobres.

Tratamento de resíduos – Utilização de materiais descartados para criar a estrutura das moradias sem prejuízo às questões de segurança e funcionalidade. Os resíduos orgânicos viram adubo pelo método de compostagem e os recicláveis podem servir de material para outras construções e gerar renda.

Casa feita de acordo com os preceitos de bioconstrução

Gerry Thomasen/Flickr: Gerry T/CC BY 2.0

No Brasil, a técnica de bioconstrução não possui uma regulamentação própria, como acontece em alguns países da Europa, mas segue a legislação e alguns procedimentos vigentes da engenharia convencional.

“O fundamento da bioconstrução é aproveitar as vantagens que os recursos naturais de baixo impacto oferecem aliados a um design que prioriza a climatização natural”, afirma o arquiteto César Augusto da Costa, o Gugu Costa, da empresa Arquitetura da Terra

Para o especialista, a bioconstrução vai além. “É uma forma de resgatar um ambiente saudável para as pessoas. Existem muitos compostos químicos nos materiais de construção que, ao evaporarem, são absorvidos pelo organismo e causam danos à saúde. A bioconstrução oferece os dois aspectos básicos de conforto (umidade e temperatura) de forma muito mais saudável e econômica. Uma parede de terra crua, ao contrário do concreto, filtra o ar interno dos ambientes e reduz a temperatura dos ambientes”.

Visão interna de uma casa feita inteiramente com bambu

Shutterstock

Das casas de barro de povos da América Central às palafitas de bambus na Ásia; dos tetos de palha em regiões de alta umidade, como florestas aos iglus dos habitantes das regiões árticas: em todas elas é possível encontrar algum princípio da bioconstrução.

Há uma ideia falsa de que esse tipo de construção se adequa apenas às áreas rurais. Não são poucos os projetos urbanos que aliam os recursos modernos ao conhecimento da construção tradicional. A introdução de materiais e conceitos da bioconstrução em estruturas pré-existentes, como é o caso de reformas, tem se tornado cada vez comum.

Um projeto arquitetônico feito no sistema de bioconstrução segue as mesmas características técnicas de uma estrutura regular e demanda uma equipe de pedreiros, eletricistas e encanadores. A diferença é a visão e a forma de trabalhar que, muitas vezes, é mais integrada e circular. A redução da quantidade de materiais convencionais diminui o desperdício e torna o modelo de bioconstrução mais sustentável.

Quem se interessar por este tipo de construção ficará surpreso com a quantidade de recursos disponíveis, que vão de resinas impermeabilizantes à base de mamona até tintas de terra, que chegam a durar até 8 anos em ambientes externos. Outro benefício é o custo. “Já executei uma obra com o orçamento 30% menor se comparado ao modelo usual”, relata Gugu Costa.

Com objetivo de ampliar a conscientização sobre a bioarquitetura, Gugu Costa também se dedica à realização de oficinas onde os participantes podem manejar materiais e entender como acontece sua aplicação e cuidados. “Nos cursos simulamos situações reais de aplicação de técnicas em que trabalhamos o planejamento e os detalhes das tecnologias”, complementa.

Publicado em Namu.

 

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