Regai por nós: O professor que planta árvores pela cidade de SP

É muito comum ouvir que as grandes cidades carecem de áreas verdes e que é preciso plantar árvores para não sucumbirmos aos problemas urbanos. Governantes e candidatos são os primeiros a lançar mão dessa retórica. Na prática, porém, pouco ou quase nada se faz.

Não é o caso do professor de educação infantil Diego Lahóz, que arregaçou as mangas e, desde 2015, espalha voluntariamente mudas de flores e de árvores pelo bairro paulistano da Vila Madalena com o Flores no Cimento.

“Eu usei a jardinagem como uma forma de atrair pessoas para um interesse em comum. A gente não quer fazer um mega paisagismo por São Paulo, queremos atrair pessoas para cuidarem do espaço comum. O objetivo maior é esse”, sintetiza.

A “gentileza urbana” é composta de muita criatividade, uma vez que Diego se utiliza de arranjos pouco comuns para chamar atenção dos transeuntes. Os “criativos”, como ele denominou esses vasos, são montados a partir de sapatos, garrafas, calças, coadores de café, entre outros.

“Utilizamos materiais que seriam descartados. A gente reutiliza esse material, fazendo um descarte a menos. Criatividade é algo que instiga, atrai e provoca as pessoas. Uma provocação que gera transformação”, diz.

Atuação em rede

As ações isoladas do professor Diego já ficaram para trás, pois uma série de voluntários está engajada e o ajuda espalhar o verde pela cidade — há ainda uma horta coletiva gerida pelos amigos do Flores no Cimento. O Facebook e o Instagram são os dois principais congregadores dessas pessoas.

“A criação de uma rede favorece esse tipo de prática [colaborativa] na cidade. Assim vamos refinando nossos valores. Até então a gente plantava apenas um tipo de flor, hoje há uma variedade, porque conhecemos o pessoal do S.O.S Abelhas Sem Ferrão e entendemos a importância dos polinizadores, por exemplo”, conta Diego.

Outros dois parceiros do Flores no Cimento são o Floresta de Bolso, conduzido pelo botânico Ricardo Cardim, e o Novas Árvores por Aí, ambos os projetos visam resgatar espécies da mata atlântica em ambientes urbanos. Segundo o professor, agora eles não saem plantando qualquer espécie, porque há uma troca de informações muito rica entre esses coletivos.

                                                                         Créditos: Lucia Jordan Gonçalves/Facebook
                                                Diego Lahóz (em primeiro plano) em ação do Flores no Cimento na Vila Madalena (SP)

“Eu me dou muito bem com as pessoas, sou bastante flexível, gosto de ouvir o outro. Eu sou professor, então tenho que ouvir para saber o que está acontecendo e para passar uma informação. Outra habilidade que considero fundamental é que não tenho preguiça para fazer esse trabalho”, diz.

Além de mirar preceitos de sustentabilidade, Diego considera seu trabalho uma forma de humanizar a cidade e ampliar a percepção do outro, não apenas em algo que ele possa te oferecer, mas em algo que ele esteja eventualmente precisando.

“A única lei que a gente tinha certeza que estava cumprindo era a de que podíamos fazer alguém um pouco mais feliz deixando uma flor no caminho dela, uma mensagem, um poema, uma música, um pedaço de manjericão para temperar o macarrão de domingo”, resume. Há apenas um pedido para o público geral: “Regai por nós”.

Publicado em As Coisas + Criativas do Mundo.

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