Cresce a procura por alimentos saudáveis no Brasil

Os brasileiros estão procurando se alimentar melhor, e isto significa maior consumo de produtos frescos e orgânicos. Se nos últimos anos a ida ao supermercado vinha sendo marcada pelo maior acesso aos produtos industrializados, agora existe uma preocupação crescente com o consumo de frutas, verduras, ovos e peixes. Desde 2008, o crescimento do mercado foi de cerca de 10%, segundo um relatório de maio da consultoria Euromonitor.

Márcia Foletto / Agência O Globo
Márcia Foletto / Agência O Globo

A mudança de comportamento ainda é tímida, mas aponta uma tendência influenciada por diversos fatores, entre os quais até mesmo os eventos esportivos da Copa e dos Jogos Olímpicos. Por isso, a expectativa é “bastante favorável”, segundo o relatório, de continuidade de crescimento desse mercado.

– As pessoas estão mais conscientes de que alimentos mais frescos são mais benéficos para a saúde – garante a endocrinologista Isabela Bussade, professora da PUC-Rio. – É bom frisar que estes ingredientes são até mais baratos do que os industrializados, além de mais equilibrados, com menos gordura e açúcar.

O envelhecimento e as altas taxas de diabetes, doenças cardíacas e obesidade – mais de 50% estão acima do peso, segundo o “Estudo do Impacto Global de Doenças” publicado em maio – da população são outros fatores que têm levado à busca de opções mais saudáveis.

– Famílias com crianças e bebês são as que mais têm buscado opções saudáveis – complementa Susana Feichas, coordenadora do MBA em Gestão do Ambiente e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O alerta com a saúde também fortaleceu o interesse do consumidor pelos orgânicos, segundo o relatório. Vegetais, ovos e frutas são as categorias com maior penetração. Mas a demanda emperra nos altos preços e na distribuição um pouco limitada.

Ainda assim, houve um avanço de 20% em 2013 na produção de alimentos orgânicos em comparação com o ano anterior. São sete mil produtores e mais de dez mil unidades de produção orgânica em funcionamento no país, segundo o Ministério da Agricultura. Além disso, o Brasil ainda compra orgânicos de duas mil unidades de países da América do Sul, do Norte, Europa, Ásia e Oceania.

– Existe maior incentivo de políticas públicas do governo na produção orgânica e agroecológica – comenta Susana. – O grande gargalo que existe ainda é a na logística de comercialização e distribuição. Muitas vezes, o produtor não tem condições de escoar sua produção.

Hora de ir à feira

Além de supermercados, as feiras livres podem se beneficiar da tendência, uma vez que a antiga cultura de ir à feira vinha perdendo espaço para as grandes unidades de venda. No Rio de Janeiro, são cerca de 200 feiras em atividade, e nelas é a palavra que se sobrepõe ao código de barras.

– Realmente perdeu-se este hábito, mas adoro a feira, venho desde pequena – lembra a musicista Daniela Spielmann. – Prefiro os produtos daqui aos congelados do supermercado, especialmente os legumes e o peixe. É gostoso e faz bem para a saúde.

Ano passado, a prefeitura também publicou um decreto para aumentar o número de feiras orgânicas no Rio, criando, assim, o Circuito Carioca de feiras orgânicas, que reúne mais de cem produtores rurais.

Produzir com mais qualidade

Com o aumento do consumo e, consequentemente, da produção, Susana Feichas chama atenção para como estes alimentos vêm sendo produzidos.

– Maior produtividade não significa, necessariamente, desmatar novas áreas, mas sim, cuidar melhor da terra – defende a coordenadora da FGV.

Além disso, é preciso controlar o desperdício. Produtor orgânico, Carlos Wagner lembra que um quinto de tudo o que é produzido hoje é desperdiçado ou acaba sendo usado para outros fins, por exemplo, a alimentação de animais, como o gado:

– A tendência é ficarmos mais atentos não à quantidade, mas à qualidade da produção. Não adianta ter um recorde de produção de alimentos, mas carregados de agrotóxico, por exemplo.

Publicado em O Globo.

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