Soluções baseadas na natureza para melhorar gestão da água no mundo

As soluções baseadas na natureza podem ter um papel importante na melhoria do abastecimento e na redução do impacto dos desastres naturais. Esta é a conclusão do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos.

O estudo está sendo apresentado ao mundo no 8º Fórum Mundial da Água. O relatório defende que reservatórios, canais de irrigação e estações de tratamento de água não sejam os únicos instrumentos de gestão hídrica à disposição. Para estes mesmos fins, a Unesco recomenda a chamada “infraestrutura verde”, ou seja, soluções baseadas na natureza (SbN).

Na prática, as sugestões para ampliar a qualidade, quantidade e o acesso a água seriam a extensão da cobertura vegetal – para pastagens, zonas úmidas e florestas – a recomposição de solos, jardins suspensos e, principalmente, a proteção das bacias hidrográficas.

No entendimento de Ângela Ortigara, pesquisadora e oficial de projetos de avaliação dos recursos hídricos da Unesco, que participou da elaboração do relatório, as soluções baseadas na natureza podem “melhorar a segurança hídrica, reduzir riscos de desastres e gerar benefícios aos envolvidos”.

Apesar dos benefícios, o relatório aponta que o mecanismo verde ainda é “subutilizado” em comparação com as “tecnologias cinzas”, como barragens e cisternas, por exemplo. “O relatório quer dizer que tem que se buscar o equilíbrio correto entre a duas infraestruturas.

Um exemplo citado pela pesquisadora brasileira é o programa federal Produtor de Água, que oferece estímulo financeiro a agricultores que adotaram mecanismos de preservação ambiental. Em uso no Distrito Federal, a iniciativa é referência da Unesco de priorização das SbNs.

Boas práticas no mundo

Na esfera mundial, como exemplo de “práticas recomendáveis”, o relatório cita o exemplo do estado do Rajastão, na Índia. Em 1986 a região passou por uma das piores secas de sua história.

Durante os anos seguintes, uma ONG trabalhou junto com as comunidades locais para estabelecer estruturas de coleta de água e regenerar solos e florestas na região. A iniciativa levou a um aumento de 30% na cobertura florestal, os níveis das águas subterrâneas subiram em alguns metros e a produtividade das terras de cultivo aumentou.

Outro “case” citado no texto é o da China. Recentemente, o país asiático iniciou um projeto chamado Cidade Esponja, para melhorar a disponibilidade de água em aglomerados urbanos. Até 2020, a previsão, segundo o levantamento da Unesco, é de que serão construídas 16 cidades-esponjas pelo país.

“O objetivo é reciclar 70% da água da chuva por meio de uma maior permeação do solo, por retenção e armazenamento, e pela purificação da água e restauração de zonas úmidas adjacentes”, explica o documento.

O verde nas cidades

Apesar do nome, as soluções baseadas na natureza não se referem apenas às práticas que poderiam ser adotadas em áreas rurais ou de grande extensão vegetal. A proposta do relatório da Unesco, segundo Ângela Ortigara, é mostrar como é possível preservar as funções dos ecossistemas, tanto naturais quanto artificiais, também nas grandes cidades.

Um exemplo urbano dado pela pesquisadora é o de coleta da água da chuva em cidades.”Se, ao invés de coletar a água da chuva diretamente dos telhados, usássemos mais ‘telhados verdes’ [com plantas] teríamos como benefício a redução das ilhas de calor”.

Outros exemplos urbanos incluem medidas para reciclar e coletar água, reservatórios para a recarga de águas subterrâneas e proteção de bacias hidrográficas que abastecem cidades.

Custa caro?

Dados apresentados no relatório estimam que serão necessários, aproximadamente, U$$ 10 trilhões para a infraestrutura de recursos hídricos no mundo, entre 2013 e 2030.

Como as SbNs não requerem, necessariamente, aportes financeiros adicionais, os organizadores do estudo dizem esperar, portanto, que as soluções baseadas na natureza contribuam para reduzir esses investimentos por meio de melhor eficiência econômica, ambiental e social.

Como estimativa de gastos, o relatório cita exemplos das quantias investidas em situações em que as tecnologias verdes foram utilizadas. De acordo com o portal Ecosystem Marketplace, governos, companhias de água e saneamento, empresas e comunidades gastaram U$$ 25 bilhões para o pagamento desse tipo de infraestrutura ecológica voltada para água. Mais de 480 milhões de hectares de terra foram afetadas, positivamente, pelas mudanças. Ou seja, em uma conta rápida, é possível perceber que o investimento compensa.

Embora os valores ainda não sejam exatos, a Unesco propõe que cidades e empresas adotem, cada vez mais, esse tipo de solução para a gestão da água. Apesar dos investimentos em SbNs serem considerados “crescentes”, os exemplos de uso correspondem a apenas 1% das cidades do mundo.

Veja quanto cada continente investiu em tecnologia verde (Foto: Unesco/Reprodução)Veja quanto cada continente investiu em tecnologia verde (Foto: Unesco/Reprodução)

Veja quanto cada continente investiu em tecnologia verde (Foto: Unesco/Reprodução)

Fórum Mundial da Água

Esta é a oitava edição do Fórum Mundial da Água, realizado a cada três anos em um país diferente. A primeira edição ocorreu em 1997, em Marrakesh, no Marrocos, e a última em 2015, em Daegu, na Coreia do Sul.

O encontro deste ano traz o tema “Compartilhando Água”. O objetivo, segundo os organizadores, é estabelecer compromissos políticos e incentivar o uso racional, a conservação, a proteção, o planejamento e a gestão da água em todos os setores da sociedade.

Em Brasília, o 8ª Fórum Mundial da Água reúne representantes de 175 países, entre cientistas, governantes, parlamentares, juízes, pesquisadores e demais cidadãos.

O “Relatório Mundial da Água 2018”, em inglês, pode ser acessado aqui.

Publicado em G1.
Para ler na íntegra, acesse aqui e aqui.

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